Basta encantar-se. E só.
Não havia qualquer estrela no canto do olho do dia, até o mágico surgir do nada à minha esquerda, segurando uma cartola, sorrindo sem lebres, cercado de malabares. A bailarina cruzou o asfalto quente, batizando os pés entre piruetas e espirais com fitas. A música começou a tocar vinda da calçada. O homem de sobretudo, sob um sol de quarenta graus, segurava embrulhos e um olhar de sonho. Como personagem do Cirque du Soleil, o velho sorria sozinho, alimentando pombos imaginários. Em fração de segundo, surgiu a atriz. Empertigou-se diante da primeira fila de carros e declamou um poema com uma tristeza que a honrava. No carro ao lado, uma mulher mastigava com força, às pressas, sem graça, um sanduíche. Caberia rir, mas não era o caso. O sinal abriu, o espetáculo parou. Arranquei de alma farta. Os artistas foram sumindo, deixando-me menos só pelo asfalto. O sinal foi ficando para trás e uma certeza ganhou velocidade: o mundo, para alguns, é mesmo monótono e monocromático.
6 Comments:
At Março 05, 2006,
Tom said…
Ainda ontem pensei nessa sua adorável mania de tornar mágico, um fato qualquer do cotidiano. Continue olhando assim. Um beijo e saudades. Seu, Tom
At Março 05, 2006,
Anônimo said…
De repente, entro no elevador e desço me desenrolando em fitas de pano. E o calor não me chateia mais, porque vem da pipoqueira e do chá que a sua avó me serve. De repente, num sábado, me vendo triste, sorri pras prostitutas do centro velho, achando que minha balada era o próprio Moullin Rouge. E isso tudo porque Diana, com suas setas, me indica coisas tão bonitas, que plantei vitória régia onde tinha choro.
Um beijo bem amarelo. Não de febre, ok?
At Março 05, 2006,
leilalopes said…
e ainda bem que há os que enxergam, no mundo, algo assim de tonalidades incríveis, e fazem parte deste mesmo chão quente. beijo beijo
At Março 06, 2006,
Maria Cláudia said…
Na verdade temos a mania de preferir complicar as coisas simples. Você coloriu! :) beijo.
At Março 07, 2006,
mario cezar said…
sim . mulher que mastigou o vento. sim , mulher que andou sobre sangrias. se recuou foi pra abraçar os pássaros. não fique tanto tempo sem postar. beijos
At Março 11, 2006,
Loba said…
Saudade que eu estava destes seus textos maravilhosamente poéticos! E deste mundo policromático que suas palavras abrem! Lindo, Diana!
Beijos
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